TCLE

Modelo de TCLE: como fazer um termo com validade jurídica

Modelo de termo de consentimento (TCLE) campo a campo, com checklist, cláusula LGPD e estrutura comentada. Veja como adaptar por especialidade e deixar assinável.

Por João Felipe Frandolozo

Um bom modelo de TCLE precisa registrar duas coisas que a lei e o Conselho Federal de Medicina esperam que você consiga provar: que o paciente foi informado de fato e que decidiu livremente. Na prática, isso significa um documento com identificação completa, diagnóstico em linguagem clara, descrição do procedimento, riscos específicos, benefícios realistas, alternativas, direito de revogar, cláusula de dados (LGPD) e assinatura com data e hora. O problema é que a maioria dos modelos que circulam em .doc e .pdf são genéricos, sem versão por especialidade e sem cláusula de proteção de dados, e ainda obrigam você a imprimir, assinar no papel e arquivar em pasta. Este guia mostra a estrutura campo a campo, traz um modelo comentado para você adaptar e explica como transformar esse modelo em um termo que já nasce assinável eletronicamente, com aceite registrado e arquivamento auditável. Se você ainda tem dúvida sobre o conceito antes de montar o documento, vale ler primeiro o guia o que é o TCLE e o que é o consentimento informado.

Qual a estrutura de um modelo de TCLE?

Um modelo de TCLE se organiza em três blocos: identificação (quem assina e em que contexto), conteúdo informativo (diagnóstico, procedimento, riscos, benefícios, alternativas) e manifestação de vontade (declaração de compreensão, direito de revogar, data, hora e assinaturas). A Recomendação CFM 1/2016 trata o consentimento como um processo de diálogo, não como um simples formulário a ser assinado.

A tabela abaixo funciona como checklist. Use-a para auditar qualquer modelo que você já tenha ou para montar o seu do zero. Aqui o foco é o checklist pronto para usar; para entender por que cada campo é exigido e os erros que invalidam cada um, veja termo de consentimento informado: o que precisa ter.

#CampoPor que é essencial
1Identificação do pacienteCPF, nome e nascimento vinculam o termo à pessoa certa
2Identificação do profissionalNome e número de registro (CRM ou CRO)
3Representante legal (quando houver)Nome, CPF e grau de parentesco ou vínculo
4Diagnóstico e estado clínicoContexto que justifica o procedimento, em linguagem acessível
5Descrição do procedimentoO que será feito, como, onde e com qual finalidade
6Riscos e complicaçõesFrequentes, graves e específicos daquele paciente
7Benefícios esperadosRealistas, sem promessa de resultado
8Alternativas terapêuticasInclui a opção de não fazer nada
9Espaço para dúvidasRegistro de que perguntas foram esclarecidas
10Direito de revogarPaciente pode desistir a qualquer momento
11Cláusula de tratamento de dados (LGPD)Finalidade, base legal e retenção dos dados pessoais e de saúde
12Data, hora, local e assinaturasHora ajuda a provar que o consentimento não foi colhido na mesa cirúrgica

Como ler o checklist

Cada linha é um item verificável. Se o seu modelo atual falha em qualquer um dos doze, ele tem uma lacuna que pode ser explorada em uma contestação ética ou judicial. Os campos mais negligenciados, na prática, são o 6 (riscos específicos), o 8 (alternativas) e o 11 (cláusula LGPD), justamente os que mais aparecem em disputas.

O que não pode faltar em um TCLE?

Não pode faltar a especificação concreta de riscos e a apresentação de alternativas. Esses dois campos são os mais contestados porque ajudam a provar (ou não) que o paciente decidiu com informação real. Frases genéricas como “fui informado de todos os riscos” sem listá-los, ou a ausência da opção de não tratar, fragilizam o documento exatamente quando ele mais importa.

O Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018) impõe ao médico o dever de informar e de respeitar a decisão do paciente. Traduzindo para o documento, três pontos são inegociáveis:

  • Riscos descritos de forma específica. Não basta “risco cirúrgico geral”. Liste complicações frequentes (mesmo leves) e graves (mesmo raras), além de riscos ligados às comorbidades daquele paciente.
  • Alternativas reais, incluindo a de não fazer. O paciente tem direito de saber que existem outros caminhos, mesmo que você recomende um deles.
  • Linguagem que um leigo entenda. Se um leitor sem formação em saúde não compreende o que vai acontecer com o corpo dele, o termo não cumpriu sua função, e peritos olham para o conteúdo, não apenas para a assinatura.

Para odontologia, o raciocínio é o mesmo: o Código de Ética Odontológica também exige esclarecimento e consentimento, e o modelo deve descrever procedimento, riscos e alternativas com a mesma especificidade.

Observação YMYL: este conteúdo é informativo e de apoio, e não substitui a orientação de um profissional. Antes de adotar um modelo na sua rotina, valide o texto com seu advogado ou responsável técnico, em especial as cláusulas de risco e de dados.

Modelo genérico comentado (exemplo educativo)

O bloco abaixo é um exemplo educativo de estrutura, em tópicos, para você entender o esqueleto de um TCLE. Não é redação jurídica pronta para colar e usar. Cada trecho entre colchetes precisa ser adaptado ao seu procedimento, à sua especialidade e ao caso concreto do paciente, idealmente com revisão de um advogado ou do responsável técnico da clínica.

Título: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, [nome do procedimento]

1. Identificação

  • Paciente: [nome completo], CPF [número], nascimento [data]
  • Profissional responsável: [nome], [CRM ou CRO número/UF]
  • Representante legal, se aplicável: [nome, CPF, vínculo]

2. Diagnóstico e contexto clínico

  • “Você foi diagnosticado(a) com [condição em linguagem clara], o que motiva a indicação do procedimento descrito a seguir.”

3. Descrição do procedimento

  • Em que consiste: [explicação acessível]
  • Como será feito: [local, tipo de anestesia, duração estimada]
  • Finalidade: [terapêutica, diagnóstica, estética ou preventiva]

4. Riscos e complicações

  • Mais frequentes: [listar]
  • Graves, ainda que raros: [listar]
  • Específicos para o seu caso: [listar conforme comorbidades]

5. Benefícios esperados

  • “O procedimento busca [resultado realista], sem garantia de resultado específico.”

6. Alternativas

  • “Existem as seguintes alternativas: [listar], incluindo a opção de não realizar nenhum procedimento, e suas respectivas consequências.”

7. Dúvidas

  • “Tive a oportunidade de perguntar e minhas dúvidas foram esclarecidas.” [espaço para registro]

8. Direito de revogar

  • “Posso retirar este consentimento a qualquer momento, antes ou durante o tratamento, sem necessidade de justificativa.”

9. Tratamento de dados pessoais (LGPD)

  • “Autorizo o tratamento dos meus dados pessoais e de saúde para [finalidade], com base em [base legal], que serão armazenados por [prazo] e tratados conforme a Lei 13.709/2018.”

10. Manifestação de vontade

  • “Declaro que li, compreendi e concordo com as informações acima e autorizo o procedimento.”
  • Data: [//] Hora: [:] Local: []
  • Assinatura do paciente / representante e do profissional

Repare que esse esqueleto serve a qualquer especialidade, mas o conteúdo dos campos 3, 4, 5 e 6 muda completamente de uma rinoplastia para um implante dentário ou para uma colonoscopia. É por isso que um modelo único genérico tende a não proteger: a força do termo está no detalhe específico, não na moldura. Em vez de partir de um .doc solto, você pode usar uma biblioteca de modelos por procedimento, com versões já estruturadas por especialidade para adaptar ao seu caso.

Em quantas vias o TCLE é impresso? Papel ou digital?

No papel, o TCLE costuma ser impresso em duas vias: uma fica com o paciente e outra no prontuário. No digital, o conceito de “vias” desaparece: existe um único documento eletrônico, com cópia disponível para o paciente e original preservado com trilha de auditoria. A Recomendação CFM 1/2016 orienta que o termo seja impresso (e não manuscrito), justamente para garantir legibilidade e padronização.

A orientação de “impresso, não manuscrito” nasceu para evitar termos escritos à mão, ilegíveis ou improvisados. O documento eletrônico cumpre esse objetivo com folga: é legível, padronizado e, ainda por cima, pode gerar prova técnica de autoria e integridade que o papel não oferece.

AspectoPapel (2 vias)Digital assinável
Cópia para o pacienteSegunda via impressaLink ou PDF enviado
OriginalFolha arquivadaDocumento com hash e trilha
Prova de quando assinouData escrita à mãoCarimbo de tempo registrado
Risco de extravioAlto (gaveta, umidade)Baixo (armazenamento auditável)
Localizar anos depoisBusca manualBusca por nome ou CPF

Como adaptar o modelo à LGPD?

Para adaptar o modelo à LGPD (Lei 13.709/2018), inclua uma cláusula que informe ao paciente qual finalidade justifica o tratamento dos seus dados, qual a base legal, por quanto tempo os dados serão guardados e quais são seus direitos como titular. Dados de saúde são dados sensíveis e exigem cuidado redobrado na descrição.

Na prática, a cláusula do campo 9 do modelo precisa deixar claro:

  • Finalidade: registro do consentimento, cumprimento do dever de informação e guarda no prontuário.
  • Base legal: em geral, a tutela da saúde e o cumprimento de obrigação legal ou regulatória do profissional, conforme a LGPD (Lei 13.709/2018). O consentimento da LGPD não se confunde com o consentimento médico do procedimento: são autorizações diferentes, com finalidades diferentes.
  • Retenção: o prontuário (e o termo, que faz parte dele) costuma ser guardado por um prazo mínimo definido pelas normas do CFM, em geral apontado como 20 anos a partir do último registro. Confirme o prazo aplicável ao seu caso.
  • Direitos do titular: acesso, correção e informação sobre o tratamento, na forma da LGPD.

Um detalhe importante: a base legal mais adequada para o tratamento de dados de saúde nem sempre é o “consentimento” da LGPD, podendo ser a tutela da saúde ou o cumprimento de obrigação legal ou regulatória. Marque esse ponto para revisão com seu responsável jurídico, porque ele varia conforme o contexto da clínica.

Por que um PDF assinado por foto no WhatsApp não protege?

Porque uma foto de assinatura enviada por WhatsApp não comprova autoria nem integridade. Qualquer pessoa pode fotografar uma folha assinada, e o arquivo pode ser editado depois sem deixar rastro evidente. Sem verificação de identidade, carimbo de tempo e hash do documento, esse “termo” tende a ter força probatória frágil e pode ser questionado com facilidade. Aprofundamos esse risco em foto de termo assinado no WhatsApp tem validade jurídica?.

O ponto não é que o WhatsApp seja proibido, e sim que ele não gera os elementos que a Medida Provisória 2.200-2/2001 e a Lei 14.063/2020 associam a um documento eletrônico confiável: prova de quem assinou e prova de que o conteúdo não foi alterado depois. Uma imagem de assinatura num grupo de mensagens não traz nada disso.

Os problemas concretos de uma foto de assinatura são:

  • Sem identidade verificada. Não há como provar que foi o paciente, e não outra pessoa, que assinou.
  • Sem integridade. O PDF ou a imagem podem ser alterados, e não existe hash para detectar a adulteração.
  • Sem carimbo de tempo confiável. A data da mensagem não equivale a um registro técnico de quando o aceite ocorreu.
  • Sem trilha de auditoria. Não há registro de envio, abertura, leitura e assinatura.

Como transformar seu modelo em assinatura rastreável?

Para transformar o modelo em uma assinatura rastreável, você substitui a folha impressa por um fluxo eletrônico que verifica a identidade do paciente, registra o aceite com data e hora e protege o conteúdo com hash. O documento deixa de “morrer no download” e passa a gerar prova auditável de autoria e integridade, sem você precisar imprimir, arquivar em pasta nem procurar a folha anos depois.

A MP 2.200-2/2001, no artigo 10, §2º, admite outros meios de comprovação de autoria e integridade quando aceitos pelas partes, o que dá respaldo à assinatura eletrônica avançada. É exatamente esse o modelo do Termo Médico, que aplica:

  • Verificação de identidade por OTP (código enviado ao paciente) no momento da assinatura
  • Hash SHA-256 do documento: qualquer alteração posterior muda o hash e denuncia a adulteração
  • Registro de IP e carimbo de tempo do aceite
  • Trilha de auditoria com todos os eventos: envio, abertura, leitura e assinatura

Importante registrar o limite: trata-se de assinatura eletrônica avançada, apoiada na MP 2.200-2 e na LGPD, e não de certificado ICP-Brasil. Para o TCLE, esse padrão é robusto e, na prática, costuma ser suficiente. Para receituário de medicamentos controlados, que exige assinatura qualificada com certificado ICP-Brasil, ele não substitui o certificado digital. Esse trecho, por envolver enquadramento legal específico, também merece validação com seu responsável técnico ou jurídico.

A diferença prática em relação a um .doc baixado de um site acadêmico é direta: em vez de um arquivo estático que ainda precisa ser impresso, assinado no papel e guardado, você usa um modelo que já nasce assinável, organizado por procedimento, com aceite registrado e arquivamento que você localiza por nome ou CPF em segundos.

Perguntas frequentes

Como fazer um TCLE do zero?

Comece pela estrutura de doze campos do checklist deste guia: identificação, diagnóstico, descrição do procedimento, riscos específicos, benefícios, alternativas, dúvidas, direito de revogar, cláusula LGPD e assinatura com data e hora. Depois, adapte o conteúdo dos riscos e alternativas ao procedimento concreto e valide com seu responsável jurídico.

O que precisa conter no termo de consentimento?

Precisa conter identificação de paciente e profissional, diagnóstico em linguagem clara, descrição do procedimento, riscos frequentes e graves, benefícios realistas, alternativas (incluindo não tratar), espaço para dúvidas, direito de revogar, cláusula de tratamento de dados (LGPD) e data, hora, local e assinaturas.

Existe modelo de TCLE pronto e gratuito?

Existem muitos modelos gratuitos em .doc e .pdf, mas a maioria é genérica e exige adaptação. Um modelo pronto só protege bem se for específico para o procedimento e o paciente. Veja a biblioteca de modelos por procedimento para partir de uma versão já estruturada por especialidade, em vez de um arquivo solto.

Existe modelo por especialidade?

Sim. O esqueleto do TCLE é o mesmo, mas riscos, benefícios e alternativas mudam de uma especialidade para outra. Por isso modelos por procedimento (rinoplastia, implante dentário, colonoscopia, e assim por diante) tendem a ser mais seguros do que um modelo único genérico.

O TCLE precisa ser impresso ou pode ser digital?

Pode ser digital. A versão eletrônica tende a ter a mesma validade do papel, desde que comprove autoria e integridade. A Recomendação CFM 1/2016 orienta que o termo seja impresso (não manuscrito), e o documento eletrônico cumpre esse objetivo gerando, ainda, prova técnica que a folha de papel não oferece.

Em quantas vias o TCLE é impresso?

No papel, em duas vias: uma para o paciente e outra para o prontuário. No digital não há “vias”: existe um único documento, com cópia para o paciente e original preservado com trilha de auditoria.

Como adaptar o TCLE à LGPD?

Inclua uma cláusula informando finalidade, base legal, prazo de guarda e direitos do titular sobre os dados pessoais e de saúde. Lembre que a base legal para dados de saúde nem sempre é o consentimento da LGPD, podendo ser a tutela da saúde, e valide esse ponto com seu jurídico.

Quem elabora o TCLE?

A responsabilidade pela informação e pelo consentimento é do profissional que realiza o procedimento (médico ou dentista). A clínica pode padronizar modelos e, idealmente, o texto é revisado por um advogado ou responsável técnico, mas o dever de esclarecer o paciente é sempre do profissional.

O TCLE precisa de testemunhas?

Em regra, não. O TCLE comum não costuma exigir testemunhas. O essencial é comprovar que o paciente foi informado e decidiu livremente. Em situações específicas (paciente que não sabe assinar, por exemplo), uma testemunha pode ser usada, mas não é requisito geral.

Qual a linguagem e a fonte corretas no TCLE?

A linguagem deve ser a mais acessível possível, sem jargão técnico não explicado, para que um leigo compreenda. Quanto à apresentação, a Recomendação CFM 1/2016 orienta termo impresso e legível. Em termos práticos, use fonte de tamanho confortável e evite letras minúsculas que dificultem a leitura.

Conclusão

Um bom modelo de TCLE não é o que tem mais cláusulas, é o que ajuda a provar que o paciente entendeu e decidiu livremente: identificação completa, riscos específicos, alternativas reais, cláusula LGPD e assinatura com data e hora. Modelos genéricos em .doc ajudam como ponto de partida, mas tendem a morrer no download, porque ainda exigem imprimir, assinar no papel e arquivar, e não geram prova de autoria nem de integridade.

A alternativa é usar um modelo que já nasce assinável: estruturado por procedimento, com aceite registrado, hash, carimbo de tempo e trilha de auditoria, e arquivamento que você localiza por nome ou CPF.

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Referências:

Aviso (conteúdo YMYL): este material é informativo e de apoio. Não substitui a avaliação de um advogado ou do responsável técnico da clínica para casos concretos.